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A TV BAIANA E SEUS POPULARES

Quando falamos em programas populares e telejornalismo popular, a que nos referimos? A um formato que tem alta receptividade e grandes níveis de audiência? A um jornalismo ou programa direcionado para as denominadas “classes populares” (público das classes C, D e E)? Afinal, porque jornalismo popular, ou programas populares? Esta é uma discussão muito importante. No entanto, não seria pretensioso o suficiente, de minha parte, crer que seria possível no texto que vocês irão ler, esgotar este empolgante tema.

Compreende-se que a utilização do termo cultura popular e jornalismo popular adquiriu, com o decorrer do tempo, adjetivações e novos significados, que vieram carregados de valores negativos, na maioria das vezes. Um dos mais utilizados ao se referir a jornais e programas populares é o sensacionalismo, palavra utilizada para condenar uma publicação. Seja qual for a restrição, o termo é o mesmo para quase todas as situações. Ao nomenclaturar um produto nessa classificação, o telespectador/crítico censura-o, colocando-o à margem de um jornalismo sério e relevante, não atendendo as expectativas do público.

Feitas as devidas definições, é possível organizar, agora, uma ordem de desaprovação do que é exposto diariamente na televisão brasileira, já que a associação entre jornalismo popular, sensacionalismo e baixo nível de qualidade são erroneamente colocadas, em detrimento dos produtos vendidos atualmente no horário do almoço.

Observando o cenário televisivo baiano no aspecto de interação comunicacional com a comunidade e as demandas por informação da população das classes C, D e E, percebemos que há muitos programas populares que vão ao ar diariamente, de segunda a sexta-feira, no horário nobre da tarde, com grande alcance de telespectadores, que, no entanto, possui variedade temática pouco diversificada.

Os programas populares produzidos atualmente em Salvador, como o “Se Liga Bocão” e “Balanço Geral”, transmitidos pela Rede Record/ TV Itapoan, “Na Mira” e “Que Venha o Povo”, do SBT/ TV Aratu e “Boa Tarde Bahia” da Band Bahia, cobrem, principalmente, a violência urbana, da forma mais torpe possível, com exceção do último programa citado que apresenta maior variedade temática, sem explorar tanto a violência. Neste mesmo horário também passa o jornal “Bahia Meio Dia” da TV Globo que busca se aproximar do público das classes populares por meio de matérias e quadros de serviços como “Desaparecidos” (mostra pessoas que estão a procura de familiares desaparecidos) e “Procuro Trabalho” (divulga vagas disponíveis de emprego).

Nos programas citados, é recorrente observar âncoras assumindo o papel de “defensores dos excluídos” ou justiceiros e muitas vezes produzindo um jornalismo assistencialista. Os repórteres abordando de modo jocoso ou irônico, fontes que se encontram vulneráveis (feridas, detidas em delegacias, deitadas no chão, presas, em luto após a perda de um ente, consumindo entorpecentes etc.). Os programas adotam personagens como repórteres ou repórteres personagens como Adelson Carvalho, que trabalha no Balanço Geral, e no Se liga Bocão. Com os bordões “abre o olho, jovem” e “jovem, jovem!”, Adelson consegue fazer piadas nas situações mais esdrúxulas e anti-humanas registradas na TV baiana. Diferentemente dos repórteres convencionais, ele gesticula muito, faz piadas com os entrevistados e com frequência fala em primeira pessoa e conversa com as fontes com uma intimidade de quem já as conhece, o que serve como estratégia de aproximação e identidade. Isto gera confiança, porque se o programa tem uma linguagem “do povo”, vai defender os interesses do povo.

Esta descontração e linguajar têm sido adotada por programas que se enquadram no perfil de jornalismo popular. Reiterando o que já foi dito, esta maneira mais informal de lidar com a fonte cria uma relação de identificação com o telespectador que consegue se reconhecer nos programas populares. Assim, erroneamente, os telespectadores pensam ter um “defensor” de suas causas. Mal sabem eles que a intenção é meramente mercadológica. Todos seguem uma mesma linha de apresentação, usando a exploração exagerada da violência, sensacionalismo e conflitos familiares como forma de ganhar audiência, em um horário estratégico, que varia entre 12 e 14 horas, no qual famílias reúnem-se, inclusive crianças e trabalhadores em intervalo para almoço, para assistir TV.

Diante do aqui exposto, e do alcance que a televisão possui como veículo de distribuição massiva da informação, que abrange todos os públicos - em especial os das classes C, D e E, que tem neste media a principal ferramenta de informação -, saliento que é importante disponibilizar programas que tenham a capacidade de entreter, mas também de passar informações condizentes com a realidade do público-alvo. Que cubra não só a violência que acontece no dia a dia em diversas localidades de Salvador e região metropolitana, mas também assuntos relacionados a emprego e renda, educação, segurança, esporte, meio ambiente, cultura, dentre outros temas importantíssimos de uma sociedade, mas que, ainda hoje, são tratados como coadjuvantes da cultura baiana. O problema é trocar duas horas de “pinga sangue” que ainda assim, conseguem sustentar audiências que “batem” em uma Rede Globo, por algum outro produto que tenha prestação de serviço, sem ser assistencialismo, capaz de gerar a renda que a degradação do ser humano ainda gera em Salvador.

Por Gabriela Marota(Jornalista).

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